Pais - Reflexão Teuler Reis
Muito tenho refletido sobre os caminhos da nossa sociedade. O sentimento de dever, traduzido na luta pelo restabelecimento do pacto social, na busca dos valores esquecidos ou desbotados de nossa sociedade, impõe à nossa reflexão um caráter de urgência. É preciso urgentemente resgatar o fio condutor dos bons costumes; é preciso acordar esse homem adormecido nos braços de Morfeu. Cito o Deus grego dos sonhos até mesmo para lembrar da origem da palavra Morfeu: palavra grega cujo significado é “aquele que forma, que molda”. Faço lembrar também que a palavra morfina deriva de Morfeu exatamente porque propicia ao usuário uma sonolência análoga ao sonho.
Nossa sociedade anda adormecida, melhor dizendo, está “moldada”. Um sono letárgico aos valores e princípios indispensáveis na nossa jornada humana. Colocaram a sociedade numa “fôrma” por onde escapa a nossa própria essência. Agora recolhemos atônitos a sobras da forma.
Será muito difícil entender que não nascemos humanos? Esta conquista – se tornar um ser humano – é fruto de uma intervenção nem sempre satisfatória, mas necessária. Não é possível alcançar a perfeição, sabemos disso perfeitamente, mas nossa vontade, o sonho de uma sociedade, deve ser nos guiar de tal forma que tenhamos como meta a virtude. Vejam que aqui substitui a palavra perfeição por virtude. Assim faço uma vez que a palavra virtude vem do latim virtus, tem origem na Grécia com a palavra Arete, que podemos definir como excelência. São as qualidades essenciais na constituição do ser humano. Perfeição e excelência são termos afins. Não somos perfeitos, mas nossa busca deve priorizar as virtudes. Nossa sociedade se vangloria em buscar a perfeição, mas essa busca se limita a aparelhos elétricos, celulares, televisores cada dia mais sofisticados, uma busca narcísica doentia e assim por diante. Mas não vejo uma sociedade muito preocupada com os valores humanos, com uma versão de si mesmo melhorada. Os pais querem a última versão do carro, do celular, da televisão. Mas não conseguem perceber que seus filhos são sua própria versão.
Não nascemos humanos como também não nascemos seres virtuosos. Justiça, prudência, tolerância, humor, generosidade, amor, fidelidade, e todas as outras virtudes humanas não “brotam” como mágicas. Nós, pais e educadores, somos responsáveis por essa formação, e a virtude evidentemente, se atinge com o hábito. É preciso dedicação, persistência e claro, dar o exemplo. Não há como educar filhos na incoerência.
A sociedade paga o preço do descaso. A violência diária, a corrupção, a banalização dos princípios humanos é fruto do descaso e da falta de reflexão. Precisamos chacoalhar a sociedade. Mesmo que para isso seja necessário tocar na ferida.
Outro ponto importante é a carência, a solidão, o desamparo em que vivemos. Em parte essa carência é responsável pelo desleixo em educar, em formar seres humanos. Os pais não conseguem se ver no “desamor”. Não ser amado pelos filhos é uma tormenta para eles. Sentem-se culpados pela ausência física no dia a dia e, diante dessa culpa, ficam imobilizados. Esquecem que são apenas crianças e não conseguem, na maioria das vezes, entender, compreender, o sentido de suas ações. Impossível criar filhos dignos sem a dimensão do não, do limite. Quando olho meu passado vejo o quanto sentia raiva das atitudes de meus pais. Hoje agradeço cada “não” que me deram, hoje reconheço o significado das vezes que chorei compulsivamente diante da determinação de suas atitudes. Penso que existe uma diferença muito grande dos pais do tempo de meus pais e dos atuais. Meus pais criaram seus filhos para o futuro, para serem adultos, para que nós fossemos capazes de viver mesmo na ausência deles. E para agir assim é preciso aprender a não ser amado o tempo todo. Saber que os frutos da plantação virão anos depois. Hoje os pais educam seus filhos para felicidade imediata. Se vai doer, a educação é adiada, pois isso gera dor neles próprios. Quando vêem o tempo passou e educar adultos é mais complicado.
PRESENTE DA VIDA
A vida é uma constante aprendizagem. Uma fartura de conhecimentos presenteados a nós, alguns descartáveis, outros de grande valia e há também aqueles que só conseguimos tirar proveito depois de uma longa jornada de vida. Esses são os mais difíceis de aprender. Chegam para nós de maneira estranha. E quase sempre relutamos em recebê-los. É como receber um presente, que nem sabemos ser um presente, e somente anos mais tarde descobrimos o seu valor. Durante anos é só um pacote incomodando e ocupando lugar, mal sabemos se tratar de algo especial. Recebi, ainda muito pequeno, alguns conhecimentos assim. Não conseguia entender o porquê estava recebendo aqueles presentes. Esperava outros bem diferentes. Como aqueles que meus amigos recebiam. Os meus eram quase sempre sem sentido para mim. Sempre ficava triste, mas também como ensinar uma criança a se conformar com um presente que não tinha forma, não tinha cheiro, não tinha peso e eu não podia carregá-lo em minhas pequenas mãos? Esperava por algo grande, pesado, um pacote embrulhado com papel de cores vibrantes e que me ocuparia o resto do dia. Mas quase sempre, em datas como aniversário, natal eu recebi o mesmo presente. Sabe qual? Algumas palavras. Parabéns!!! Feliz natal!! Hoje quando olho para trás vejo que meu pai me deu o melhor dos presentes. Fiz delas, das palavras, minha vida. Aprendi que nas palavras moram sentimentos e emoções que jamais conseguiremos colocar num objeto Aprendi que as pessoas são muito mais do que elas podem receber. Meus presentes não eram quantificáveis, não eram possíveis de embrulhar. Palavras são presentes que podem chegar a qualquer momento, não precisam de datas estabelecidas para serem presenteadas. Aprendi com ele não fazer das datas uma obrigação de objetos, e sim um momento especial, como tantos outros em nossas vidas.
LANÇAMENTO: Ciúme, zelo doentio.
Deixar cair o véu que recobre a natureza humana. Deixar a nudez dos sentimentos e emoções apresentarem sua reveladora realidade. Ir às profundas contradições do pensamento. Romper princípios, valores. Deixar falar a dor, a vida, o medo, o desejo. É a revelação proposta num diário de vida. O sujeito padecendo da dor, perdido de ciúmes, propõe encontrar os caminhos responsáveis pela sua sorte. O ciúme mostra, ao longo das páginas, ser sintoma capaz de destruir relações e provocar ira. Numa persistência invejável, o sujeito vai, aos poucos, desatando os nós da trama costurada pela vida e suas vicissitudes.
Lançamento em Setembro 2010
 
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