|
“A escola está repleta de atitudes preconceituosas”
Por Renato Deccache -
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
Teuler Reis: “O professor precisa desligar o ‘automático’ que está ligado e resgatar o ‘manual.’ Isso significa olhar seu aluno de uma maneira mais humana.”
Um dos assuntos mais polêmicos dos últimos anos, na área educacional, foi a decisão do Ministério da Educação (MEC), no ano passado, de distribuir um kit para combate à homofobia nas escolas. Poucos meses após anunciar a medida, o ministério recuou e decidiu cancelar o envio do material. Com ou sem kit anti-homofobia, a principal questão continua: como combater a discriminação e o preconceito no ambiente escolar?
Para o prefessor Teuler Reis, autor do livro Educação e Cidadania: A Batalha de Uma Educação Comprometida (WAK), o caminho é um ensino que abra espaço maior para os valores e a ética. Para ele, o preconceito está no dia a dia da escola e, por isso, é fundamental uma formação de desenvolva nos estudantes o respeito e a compreensão da diversidade.
“Banalizamos a educação. O educar para vida perdeu o lugar de destaque nas famílias e nas escolas. Poucas são as escolas realmente comprometidas com a formação para cidadania e valores humanos. Grande parte das escolas pensam em colocar alunos nas faculdades e em captar novos alunos. Esse é o foco da educação atual”, comentou o educador que, nesta entrevista, aborda temas como estabelecimento de uma cultura de paz nas escolas, o que é fundamental na hora de lidar com o preconceito na escola, as dificuldades que as instituições de ensino têm para lidar com esse problema, o que ele considera que falta nas políticas educacionais, entre outros aspectos
FOLHA DIRIGIDA - O MEC suspendeu a distribuição de um kit preparado para ser usado no combate à homofobia nas escolas. O que o senhor achou dessa medida? Teuler Reis - De certa forma foi melhor assim. Colocar um material na mão dos professores e não oferecer capacitação para o uso correto poderia ser um desastre. Infelizmente as decisões, às vezes, são precipitadas e acontecem com uma série de equívocos. Um trabalho dessa natureza deve iniciar-se com os próprios professores. Um “kit”, ou cartilha, como preferem alguns, só terá sentido quando antes for feito um trabalho com todos que atuam na educação de crianças e jovens, digo todos, isso inclui até o porteiro da escola. Essa conscientização deve começar na escola. Entregar um kit para uma escola despreparada para lidar com a questão da homofobia não é a solução para os problemas atuais. - A distribuição do kit foi suspensa, porém, o problema permanece. A seu ver, como a escola pode trabalhar para evitar casos de humilhações e agressões a estudantes? O problema da escola é o problema de toda uma sociedade. Banalizamos a educação. O educar para vida perdeu o lugar de destaque nas famílias e nas escolas. Poucas são as escolas realmente comprometidas com a formação para cidadania e valores humanos. Grande parte das escolas pensam em colocar alunos nas faculdades e em captar novos alunos. Esse é o foco da educação atual. Enquanto isso as crianças se veem carentes de uma formação humana capaz de conter seus impulsos e de simbolizar a dor da vida. Podemos sim trabalhar casos de humilhações e agressões dentro da escola. Basta começar levar a sério as propostas colocadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais. No livro Educação e Cidadania: A Batalha de Uma Educação Comprometida, aponto as falhas da escola no processo de formação humana. O texto dos PCN’s diz claramente que “as disciplinas devem funcionar como ferramentas para se atingir a cidadania. Estamos muito longe dessa realidade. A escola deveria começar desde cedo a trabalhar as virtudes, os valores. Se assim agissem teríamos uma sociedade mais justa, menos violenta. - O que é fundamental para criar uma cultura de tolerância nas escolas? Como construir uma diálogo que respeite a diversidade? A tolerância, como qualquer outra virtude, prudência, justiça, solidariedade, e todas outras, são aprendidas. Se a criança não tiver a chance de aprender, se não encontrar um adulto preparado que toque seu coração e mostre o valor de ser virtuoso, ela não vai aprender. A virtude não brota do nada, ela se aprende. É um apelo emocional que herdamos dos nossos mestres e pais. Poucos sabem mas a palavra virtude vem de virtus, significa excelência. Se queremos ser excelentes devemos buscar as virtudes, devemos investir nisso. Quando você me pergunta como construir um diálogo que respeite a diversidade eu penso ser necessário começarmos a ensinar as crianças e os jovens a dialogar.
- A seu ver, quais as formas de preconceito mais comuns que existem no ambiente escolar? Trabalhei muito tempo com crianças e adolescentes. A escola está repleta de atitudes preconceituosas. O corpo, a beleza, condição social, sexualidade, tudo vira palco para as atuações. E o mais triste é pensar que essas crianças aprenderam isso em algum lugar. Os pais geralmente são os modelos. Ainda que de uma forma não intencional eles acabam deixando revelar seus próprios preconceitos. E, o pior preconceito é o velado. - Por que as escolas têm se mostrado tão impotentes para coibir e evitar casos de humilhação e agressão a estudantes? A sociedade tirou da escola a credibilidade antes presente. Caminhamos, caso não aja mudanças, para um caos no processo educacional. O aluno já olha para o professor com um atestado de fracasso. Não que ele tenha consciência disso, mas ele aprende cedo na sociedade que vida de professor não é fácil. Os pais se omitem na educação dos filhos, na formação de valores e virtudes e para piorar não deixam a escola fazer seu papel. É triste, mas muitos alunos veem os professores como inimigos, e como não têm limite em casa fazem o mesmo na escola. Visto por outro ângulo a escola não deixa claro para os alunos suas regras, seus limites. Isso banaliza toda referência possível para o aluno.
- De que forma a valorização da ética e dos valores no processo de ensino poderia contribuir para criação de uma cultura de paz e tolerância nas escolas? Sou defensor de uma educação voltada para ética, para os valores humanos. A Matemática, o Português, a História, são apenas ferramentas para se atingir a cidadania. Precisamos inverter essa ordem. Quando a escola voltar seu olhar para os valores humanos, para ética, para cidadania, estaremos de fato criando adultos dignos, homens de valor. Qual o verdadeiro valor de uma pessoa? Melhor dizendo: para quem você tiraria seu chapéu na vida? Com certeza você pensou em alguém com valores humanos, uma pessoa virtuosa. Esse é o “x” da questão. Precisamos de devolver às nossas crianças o sentido da vida, dos valores humanos. A paz será uma consequência dos nossos atos. - A seu ver, as escolas, de maneira geral, valorizam a ética e a formação humana em suas propostas pedagógicas? Ou são poucas instituições que atuam desta forma? Por que? A mudança vem acontecendo, mas, ainda muito tímida. Às vezes, visito escolas com propostas humanas dignas de premiação. Porém, no dia a dia, a coisa funciona diferente. Algumas vezes, são os próprios professores que queimam a proposta. O mau exemplo coloca por terra o esforço de vários. Em meu livro cito vários exemplos de professores pouco comprometidos com a formação humana, com a ética. - Em seu livro “Educação e Cidadania: a batalha de uma educação comprometida”, o senhor fala sobre a necessidade em haver, por parte do educador, uma atitude mais compreensiva e atual em relação aos seus alunos. Por que o senhor acredita que os professores não têm essa atitude? Ser educador vai além de ensinar uma disciplina, um conceito. Ser educador é se empenhar em trazer ao mundo um humano. É participar da lapidação humana sem deixar ser complacente. Ser educador é acreditar que por trás de um gesto há algo a mais, e não medir esforços para fazer surgir o melhor. Precisamos compreender melhor nossos alunos. Eles estão carentes de humanos, carentes de sensibilidade para com o outro, carentes de sonhos, de planos, de futuro. O educador é muitas vezes a única chance que uma criança tem na vida. Nem sempre o professor olha seu aluno com olhar de investigação, com olhar de carinho. - Do que depende essa atitude mais compreensiva dos professores em relação aos alunos? Apenas dele próprio? Das condições do ambientes escolar? Do comportamento dos próprios estudantes? O professor precisa desligar o “automático” que está ligado e resgatar o “manual”. Isso significa olhar seu aluno de uma maneira mais humana. A escola pode e dever favorecer essa conscientização. A mudança deve partir de todos os lados, mas o principal é discutir que valores a escola pretende trabalhar em seus alunos, o que realmente é importante.
- O senhor viaja pelo Brasil fazendo palestras sobre Educação. Em seu contato com os professores, quais as preocupações e inquietudes mais comuns que eles apresentam? Eu fico feliz em ver tantos professores mobilizados em mudar esse cenário que vivemos. Por todo canto, por onde passo, encontro pessoas dispostas a agirem em prol da paz, de uma sociedade mais justa. Temos projetos fantásticos por esse Brasil. Mas ainda existe muita resistência em partir para o novo, ainda que esse novo seja milenar, como os valores humanos, as virtudes. Algumas vezes encontro professores angustiados, querem uma solução mágica para os problemas. É muito comum o desejo por uma receita pronta, algo simples e que traga efeitos rápidos. E, faço lembrar, a mudança é lenta. - Quais os problemas mais frequentes, do ponto de vista educacional, que o senhor pode constatar nos locais em que o senhor visitou para fazer suas palestras? A motivação dos professores? O desinteresse dos alunos? As condições estruturais das escolas? Sinceramente, para mim o maior problema é professor descomprometido com valores, com a ética e com a educação para cidadania. Basta um professor assim para colocar o trabalho de vários professores por terra.
- Na sua opinião, o que deveria ser prioridade para melhorar a qualidade da educação no Brasil? Sem dúvida a formação para cidadania. Parece simples mas não é. O maior objetivo da educação segundo os documentos que regem a educação no Brasil, é formar cidadão. Mas isso está muito distante da realidade. Um bom exemplo é pensar que ser cidadão é viver a partir de deveres e direitos de uma sociedade. Direitos e deveres esses que estão elencados na nossa Constituição Federal. Então, devemos pressupor que o sujeito responsável pela formação de cidadãos deve ter conhecimento da Constituição. Já imagino o que estão pensando, lamentavelmente quase nenhum professor tem conhecimento da Constituição. O dia que a educação priorizar a formação humana, a cidadania, aí sim iremos viver num mundo mais justo, mais humano, um mundo onde o respeito seja o ingresso para vida em sociedade.
|
|
Quando o "não" faz falta. |
|
Quando o “não” faz falta.
Não – not – pas – non – em qualquer língua o “não” é uma negação – negar-a-ação. Se o sim é um caminhar adiante, o “não” nos diz que devemos parar. A conciliação entre essas duas “direções” determina o sucesso ou o fracasso de qualquer empreendimento. Faço lembrar que a vida é um empreendimento. Nossa história reflete a atitudes dos homens, a alternância dos “sins” e dos “nãos”. Aprendemos desde cedo a administrar nossos desejos e nossas vontades, tendo como fio condutor o “não” e o “sim”. A criança que se atira no seio da mãe diz involuntariamente um “não” à morte e consequentemente um “sim” a vida. Embora esse “não” esteja desde cedo na conduta humana, é preciso um aprendizado para tirar dele a melhor experiência. Obter o autocontrole do”não” pode fazer a grande diferença entre viver ou morrer, entre o sucesso ou o fracasso.
Muitos pais desconhecem a dimensão de um “não” na vida de seus filhos. Não aprenderam o valor da recusa como proteção, como parte de uma sabedoria. Quando falo aos pais em palestras sobre o “não”, começo com uma pergunta muito simples: a vida nos dá o não, qual é o não que a vida nos dá? Um silêncio inicial toma conta do auditório. A resposta vem logo: a morte. A morte é um “não” que a vida nos dá; além dele receberemos muitos outros, no trabalho, de amigos. Será possível criar uma criança sem lhe dar a dimensão do “não” na vida? Penso ser impossível. Podemos negar até certa idade, mas inevitavelmente uma hora ela sentirá o peso do “não”. O triste fim de Eloá é um exemplo claro disso. Os pais estão cheios de culpa, de medo, o “educar para vida” perdeu o lugar de destaque nas relações familiares. Vivemos uma banalização da função paterna, da educação. O encontro com o “não” tardiamente na vida pode representar um desastre. Estamos repletos de casos de jovens que levam “não” da pessoa amada e se desesperam, perdem o controle, se é que existe controle nesses casos. Lembro que controle é governo, domínio. Uma criança sem a oportunidade de vivenciar o “não” certamente deixará a desejar no seu autocontrole. Estará à mercê de impulsos internos.
O fato é que todos querem ser amados. Dizer “não” ao filho pode representar uma ameaça ao amor. Nunca deixei de amar meus pais, embora tenha recebidos muitos “nãos” durante minha infância. Os pais de hoje temem não serem amados e fazem de tudo para continuarem se sentindo amados pelos filhos, como se uma interdição determinasse o fim do amor. Querem a todo custo poupar os filhos da dor; como se fosse possível passar pela experiência humana sem sentir dor.
Teuler Reis – Autor de “ Educação e Cidadania: A Batalha de Uma Educação Comprometida” Editora WAK.
|
|
Novelo da vida.
É fato: existem pessoas que envelhecem mas, não amadurecem. Permanecem ao longo da vida ungidos da incapacidade de encontrar saídas maduras, de resolver com maturidade seus problemas, medos, decepções e toda sorte de problemas. Optam pela ignorância, a exclusão, se tornam amargas, emburradas e, não conseguem nem mesmo se verem nessa posição. O fato é que a maioria delas repete experiências vividas ou observadas no decorrer da vida. Trazem em si o modelo dos pais, da família. Os exemplos permanecem ali, adormecidos, a espera do momento da “repetição”, para assombrarem novamente. Daí o “novelo”. O novelo é aquela estrutura em que a linha sempre volta ao mesmo ponto. Ainda que numa localização temporal diferente, o fio sempre retorna a posição dos fios anteriores. É preciso se por atento para não ser mais um nessa estrutura. Cometemos os mesmos erros dos nossos pais e, certamente nossos filhos farão o mesmo. Aprendi bem cedo observar o movimento do “novelo”. Se nos propomos a observar as voltas do fio temos uma chance de não voltar ao ponto vivido. Maturidade para mim é isso: nossa capacidade de estender o fio do “novelo” e não percorrer o mesmo trajeto, principalmente quando a estrada é sinuosa e nos provoca dor. Maturidade é saber fazer novas escolhas, tecer novos rumos e seguir em frente. Do “novelo” quero apenas o fio que liga a vida, tece alegrias, desembaraça tristezas e faz da vida um tapete voador.
|
|
|